Empresários alertam que saída da Ryanair poderá reduzir PIB dos Açores
2026-02-26 08:43:38 | Lusa
A Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) estima que a saída da Ryanair dos Açores provoque uma redução anual do Produto Interno Bruto (PIB) regional entre 1,5% e 1,7%, numa quebra até 104,5 milhões de euros.
Os dados constam de um estudo elaborado pelo Gabinete de Estudos daquela associação empresarial das ilhas de São Miguel e Santa Maria, sobre o impacto económico da anunciada saída da Ryanair dos Açores, prevista para março de 2026.
Num comunicado, a associação empresarial indica que a análise realizada demonstra, de “forma clara e fundamentada”, que a redução da oferta aérea associada à saída desta companhia “terá consequências económicas relevantes para a Região Autónoma dos Açores, afetando o turismo, o tecido empresarial e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) regional.
O estudo conclui que “a acessibilidade aérea constitui um dos principais fatores críticos de competitividade do destino Açores”, salientando que, enquanto região ultraperiférica e arquipelágica, a mobilidade aérea “não é apenas um instrumento de desenvolvimento”, mas “é uma condição estrutural para o funcionamento da economia”.
“A saída da Ryanair ocorre, além disso, num contexto particularmente sensível, marcado pelo processo de reestruturação da Azores Airlines e pela ausência de uma estratégia consistente, e de médio prazo, para as acessibilidades aéreas, circunstâncias que agravam a incerteza quanto à evolução futura da conectividade da região”, alerta.
Com base em dois cenários — assumindo que 60% ou 70% dos passageiros são turistas — o estudo da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada estima que a Ryanair transporte anualmente entre 102.886 e 118.561 turistas para os Açores.
"Tendo em conta a estada média na região (3,30 noites) e uma despesa média por turista de 1.036 euros, a preços atualizados de 2025, e aplicando os multiplicadores económicos constantes do estudo da EY-Parthenon sobre o impacto macroeconómico do turismo nos Açores, a saída da companhia poderá traduzir-se numa perda anual entre 339 mil e 391 mil dormidas", aponta.
Em termos de Valor Acrescentado Bruto (VAB), indicador utilizado como aproximação ao PIB regional, o impacto situa-se entre 79,9 e 92,1 milhões de euros.
Considerando que "o turismo representa cerca de 20% do PIB regional e que a Ryanair é responsável por uma quota estimada entre 7,5% e 8,7% do total das dormidas turísticas", a saída da companhia poderá traduzir-se "numa redução do PIB regional entre aproximadamente 90,1 milhões e 104,5 milhões de euros por ano, o que corresponde a uma diminuição estimada entre 1,5% e 1,7% do PIB previsto para 2026".
A associação sublinha que a presença da companhia aérea nos Açores desempenhou, nos últimos anos, um papel relevante na política de acessibilidades.
“A sua saída não representa apenas a perda de uma companhia aérea, mas sim a redução de um fator de dinamização económica com efeitos diretos e indiretos na estrutura produtiva regional”, lê-se no comunicado.
A CCIPD defende que os resultados obtidos demonstram que "o impacto económico potencial da saída da Ryanair é de uma ordem de grandeza substancialmente superior ao esforço financeiro público" que poderia ser necessário para "assegurar a manutenção e a diversificação das acessibilidades aéreas".
A associação empresarial reafirma a necessidade urgente de “uma estratégia integrada para as acessibilidades aéreas”, sustentada numa visão de médio e longo prazo, manifestando disponibilidade para colaborar “na construção de soluções que defendam os interesses da economia açoriana”.
O Governo açoriano (PSD/CDS-PP/PPM) disse recentemente que está a trabalhar com a TAP e SATA para colmatar a saída da Ryanair e a fazer diligências para trazer outras companhias para o arquipélago a “médio prazo”.